A cena é conhecida em qualquer consultório. O dentista aponta para uma radiografia na tela, fala em lesão interproximal, perda óssea, necessidade de endodontia. O paciente acena com a cabeça, educado, mas sai da cadeira sem ter entendido direito o que tem, por que precisa tratar e por que aquilo custa o que custa. Muitas vezes, não volta.
É justamente esse abismo entre o que o profissional enxerga e o que o paciente compreende que aparece como um dos pontos centrais da reportagem "Odontologia digital ganha espaço com IA, impressão 3D e automação", publicada pelo portal Futuro da Saúde em 9 de setembro de 2026. Assinada pela jornalista Angélica Weise, a matéria ouviu professores da USP e da Unicamp, o Conselho Federal de Odontologia (CFO), grandes fabricantes do setor e a DIO Inteligência Odontológica, startup brasileira que desenvolve inteligência artificial para análise de radiografias odontológicas, representada por seu CEO, o empreendedor estoniano Ra Ringvee.
A conclusão do texto é clara: as tecnologias digitais estão deixando de ser um diferencial de poucos consultórios para se tornar parte do fluxo de trabalho básico da odontologia. E a inteligência artificial ocupa um lugar especial nessa virada.
O país com mais dentistas do mundo, em um mercado que acelera
Para entender o tamanho da transformação, vale começar pelos números. O Brasil soma mais de 450 mil cirurgiões-dentistas registrados, algo em torno de 20% de todos os profissionais da área no planeta. Segundo o CFO, são cerca de 98 mil clínicas odontológicas registradas no país.
O mercado acompanha esse protagonismo. A consultoria Grand View Research projeta que os serviços odontológicos no mundo saiam de US$ 449,5 bilhões em 2023 para US$ 610,4 bilhões até 2030, puxados pelo envelhecimento da população, pela busca por estética e por políticas públicas de prevenção. No recorte brasileiro, o IMARC Group estima crescimento médio anual de 10,7% até 2034.
Os planos odontológicos reforçam a tendência. De acordo com dados da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) citados pela reportagem, o segmento chegou a 35,8 milhões de beneficiários em março de 2026, uma alta de 38% em relação a 2020. Mais gente com acesso significa mais exames, mais radiografias e mais decisões de tratamento a serem tomadas e explicadas todos os dias.
A hierarquia da tecnologia e o peso do investimento
Um dos trechos mais interessantes da matéria vem de Newton Sesma, professor associado de Prótese, Implantodontia e Odontologia Digital da USP. Ele descreve a incorporação tecnológica como uma espécie de escada: o scanner intraoral seria a porta de entrada do fluxo digital, e só depois dele viriam recursos como a impressão 3D. A robótica, que já é testada em cirurgias de implante na China e nos Estados Unidos, aparece como fronteira mais distante.
O problema é o custo de subir esses degraus. Segundo a reportagem, um scanner intraoral parte de R$ 55 mil e pode ultrapassar R$ 200 mil, enquanto impressoras 3D custam entre R$ 15 mil e R$ 80 mil. Sesma pondera que o retorno costuma ser rápido, mas reconhece que o investimento ainda é alto e exige treinamento de equipe e reorganização de processos.
Nesse ponto, a análise de radiografias por inteligência artificial ocupa uma posição particular: ela trabalha sobre imagens que a grande maioria dos consultórios já produz na rotina. Não depende de um equipamento novo na sala clínica para começar a gerar valor, o que ajuda a explicar a velocidade com que vem se espalhando.
Quando a IA vira infraestrutura
É aqui que entra a participação da DIO na reportagem. A IA no diagnóstico deixará de ser um diferencial competitivo e passará a ser condição básica para os consultórios se manterem relevantes já até o fim do próximo ano. A avaliação vem de quem acompanha esse movimento de perto: segundo o Futuro da Saúde, a empresa já atende cerca de 1,5 mil clínicas no Brasil.
O argumento vai além da precisão técnica. Ele destaca o papel da tecnologia na relação com o paciente: ao marcar visualmente as alterações na imagem, a ferramenta consegue, nas palavras dele, traduzir o "dentistês" para o português. O raciocínio é simples e muito humano. Ninguém investe um valor alto na própria saúde sem entender o problema e sem confiar em quem está propondo o tratamento. Quando o paciente vê, na tela, o que o dentista está apontando, a conversa muda de natureza.
O CEO da DIO também chama atenção para outro efeito, menos visível, mas talvez mais profundo: a padronização. Profissionais com diferentes níveis de experiência interpretam o mesmo exame de formas diferentes. Com o apoio da IA, todos passam a partir de um mesmo patamar mínimo de leitura diagnóstica, o que reduz retrabalho e aumenta a previsibilidade dos tratamentos. Esse benefício vale tanto para as redes privadas quanto para o SUS.
A visão converge com a do professor Sesma, que vê a IA assumindo primeiro tarefas administrativas e de organização de dados, e lembra que a decisão clínica continua sendo do cirurgião-dentista. A tecnologia amplia o olhar; não substitui o profissional.
O que a ciência já mostra
A aposta não se apoia apenas em opinião de mercado. A produção acadêmica brasileira sobre o tema cresceu bastante nos últimos anos.
Um estudo publicado na revista PLOS Digital Health, divulgado pelo Jornal da USP, mostrou que um sistema criado por pesquisadores da USP de Ribeirão Preto conseguiu identificar dentes e detectar cáries em radiografias com alto grau de precisão. Os próprios pesquisadores reforçam um alerta importante: a qualidade do modelo depende da qualidade de quem o treina, o que exige integração real entre profissionais de saúde e de computação.
Na Universidade Federal do Ceará, uma tese recente avaliou um sistema de IA na detecção de cárie proximal em radiografias interproximais. O resultado: sensibilidade de 72,4%, especificidade de 97,1% e acurácia de 83,9%, tendo como referência o consenso de dois especialistas em Radiologia Odontológica. Em outras palavras, a ferramenta raramente aponta cárie onde não existe, o que é um dado relevante para a confiança clínica.
Uma revisão integrativa publicada no Brazilian Journal of Implantology and Health Sciences chegou a conclusão semelhante, indicando que a IA aplicada às radiografias tem alcançado acurácia frequentemente equivalente ou superior à avaliação humana na detecção precoce de lesões cariosas. E a FAPESP financia um projeto voltado ao desenvolvimento de algoritmos para diagnóstico de cárie em crianças, em contextos clínicos e epidemiológicos, um sinal de que o tema já entrou na agenda da pesquisa pública.
Do consultório particular ao SUS
A reportagem do Futuro da Saúde tem o mérito de não olhar apenas para o mercado privado. O Brasil tem uma característica rara: um sistema público que oferece atendimento odontológico em larga escala, com mais de 33 mil equipes de saúde bucal espalhadas pelo país. Desde 2023, a Lei nº 14.572 institui a Política Nacional de Saúde Bucal no SUS e inclui a saúde bucal no campo de atuação do sistema, transformando em lei o que antes se apoiava em portarias do programa Brasil Sorridente.
Há iniciativas concretas de levar a odontologia digital para a rede pública. A matéria cita o Eagle Scan, primeiro scanner intraoral desenvolvido e fabricado no Brasil, que integrará kits de odontologia digital para 350 municípios, com 500 equipamentos distribuídos em todos os estados.
Mas os desafios são enormes. Sesma lista o subfinanciamento crônico, a necessidade de capacitação em massa e a infraestrutura das Unidades Básicas de Saúde como barreiras. E os dados da Pesquisa Nacional de Saúde de 2019, do IBGE, lembram o tamanho da dívida histórica: cerca de 34 milhões de adultos perderam 13 dentes ou mais, quase 44% dos adolescentes de 15 a 19 anos têm cárie não tratada e um em cada três brasileiros não foi ao dentista no ano anterior à pesquisa.
Para o professor Antonio Carlos Pereira, da Unicamp, o risco é a inovação aprofundar desigualdades caso fique restrita a quem já pode pagar. A saída, segundo ele, passa por desenhar a tecnologia com foco em equidade e por políticas públicas que a promovam e regulem. É um contraponto importante, e que dialoga diretamente com a ideia de uma "régua mínima" de diagnóstico para todos os dentistas, defendida pela DIO.
O que isso significa para quem está na cadeira de dentista
Para o cirurgião-dentista que lê esse cenário, a mensagem é menos sobre comprar tecnologia e mais sobre saber usá-la. Lívia Moretti, da Dentsply Sirona, resume na reportagem que o grande desafio de hoje deixou de ser o acesso às ferramentas e passou a ser o aproveitamento de todo o seu potencial, com equipamentos e softwares funcionando de forma integrada e com educação continuada no centro.
Na prática, a IA aplicada à radiografia toca três pontos sensíveis da rotina clínica ao mesmo tempo. O primeiro é a segurança diagnóstica, com uma segunda leitura que ajuda a não deixar passar achados sutis. O segundo é a comunicação, que transforma uma explicação técnica em algo que o paciente consegue ver e entender. O terceiro é a consistência, especialmente em clínicas com vários profissionais, onde a padronização reduz divergências e retrabalho.
O CFO, por meio de Sérgio de Sá Pires, aponta que a maior transformação da próxima década será consolidar a odontologia como parte integrante da saúde geral. Nesse futuro, o dentista que domina as ferramentas digitais tende a ter mais tempo para aquilo que nenhuma máquina faz: ouvir, decidir e cuidar.
Conclusão
A reportagem do Futuro da Saúde registra um momento de virada. O Brasil já tem os profissionais, as escolas e um mercado em expansão. O que está em jogo agora é como incorporar a tecnologia de forma ampla, responsável e acessível. A inteligência artificial no diagnóstico por imagem aparece como uma das peças mais imediatas dessa transformação, justamente por partir de exames que já fazem parte da rotina e por atacar um problema antigo: a dificuldade de fazer o paciente entender, confiar e seguir com o tratamento.
Se a previsão se confirmar, em pouco tempo a pergunta nos consultórios não será mais se vale a pena usar IA, mas como se trabalhava sem ela.