Uma pesquisa da DIO Inteligência, com 500 participantes, avaliou como pacientes veem o atendimento odontológico — da confiança no diagnóstico até a percepção sobre o uso de Inteligência Artificial (IA). O resultado é claro: a maioria dos pacientes está aberta à tecnologia, mas ainda enfrenta dificuldade para entender o que vê durante a consulta.
IA é bem aceita como apoio ao dentista
Quando questionados sobre o uso de uma IA especializada para apoiar o dentista na análise de radiografias, a resposta foi amplamente favorável: 70,1% avaliaram positivamente essa aplicação, enquanto apenas 5,7% fizeram uma avaliação negativa. Outros 18,9% ficaram neutros e 5,3% disseram não saber opinar.
Na prática, isso significa que, para cada paciente que avalia a IA negativamente, existem doze que a avaliam positivamente, um saldo de aproximadamente 64 pontos percentuais entre aprovação e rejeição.
Essa abertura não é isolada: 75,8% dos participantes consideram muito ou relativamente importante que o dentista utilize ferramentas e softwares tecnológicos durante a consulta. A tecnologia, de modo geral, já faz parte do que o paciente espera do atendimento moderno.
O que o paciente mais valoriza? Clareza, não velocidade
A pesquisa também perguntou, entre cinco atributos do atendimento (desconsiderando preço), qual o paciente considera mais importante. A clareza na explicação do diagnóstico e do tratamento ficou em primeiro lugar, com posição média de 2,38 em uma escala de 1 a 5, na qual 1 representa a maior prioridade.
Mais do que isso: 30,8% dos participantes colocaram a clareza da explicação diretamente em primeiro lugar — proporção maior do que a registrada para atendimento rápido, facilidade de agendamento, conforto durante o procedimento ou reputação da clínica, individualmente. Antes de rapidez, conforto ou reputação, o paciente quer entender o que acontece com sua saúde bucal.
A radiografia ainda é um ponto cego para o paciente
Esse desejo por clareza esbarra em um dado preocupante. Ao serem perguntados se compreendem o que o dentista mostra em uma radiografia, apenas 38,9% disseram entender claramente na maioria das vezes. Outros 28,8% disseram compreender apenas algumas vezes, enquanto o restante relatou não compreender claramente as imagens na maioria das situações ou nunca ter recebido esse tipo de explicação.
Somando quem entende "na maioria das vezes" com quem entende "algumas vezes", chega-se a 67,6% com algum grau de compreensão das imagens radiográficas. Ainda assim, o fato de menos de quatro em cada dez pacientes relatarem compreensão frequente mostra que existe espaço real para melhorar a forma como os achados radiográficos são apresentados durante a consulta.
Confiança é alta, mas a dúvida também aparece
A confiança no diagnóstico é um dos pontos mais fortes da pesquisa: 74,4% confiam no dentista na maioria das vezes, e 21,2% confiam algumas vezes — juntos, 95,6% demonstram algum grau de confiança.
Mas essa confiança não é absoluta nem constante. 66,2% dos participantes relataram já ter vivenciado ao menos uma situação em que não confiaram completamente no diagnóstico ou tratamento proposto. Entre essas pessoas, 36,3% do total de respondentes da questão buscaram uma segunda opinião, 17,0% decidiram continuar o tratamento mesmo com dúvida, e 12,8% simplesmente não retornaram ao profissional após a experiência.
Esse último número merece atenção: mais de 1 em cada 10 pacientes deixou de voltar ao dentista após um episódio de desconfiança — risco direto para a retenção de pacientes na clínica.
Entender a radiografia está ligado a confiar mais
A pesquisa identificou uma associação estatisticamente significativa (p < 0,001) entre compreender melhor as radiografias e confiar mais no diagnóstico. A força dessa associação foi pequena, e os próprios pesquisadores destacam que se trata de uma relação observacional — não é possível afirmar que entender a imagem, isoladamente, cause mais confiança. Ainda assim, o dado reforça que comunicação visual e confiança caminham juntas.
Também houve associação significativa (p < 0,001) entre a percepção positiva sobre IA e a importância atribuída à tecnologia: quem valoriza mais ferramentas tecnológicas tende a avaliar a IA de forma mais favorável. Curiosamente, não houve associação entre escolaridade e percepção sobre IA — mesmo com 76,8% dos participantes tendo ensino superior ou pós-graduação, esse nível não influenciou a aceitação da tecnologia.
IA como apoio à comunicação — não como substituta do dentista
O estudo nunca apresentou a IA como substituta do cirurgião-dentista, mas sim como apoio na análise das radiografias. É nesse papel — destacar visualmente estruturas e possíveis alterações — que a tecnologia parece ter maior potencial: ajudar o profissional a mostrar, de forma concreta, o que embasa seu diagnóstico.
A pesquisa dialoga com um levantamento anterior da Pearl, de 2022, nos Estados Unidos, que identificou preocupação semelhante: comunicação, compreensão radiográfica e tecnologia se relacionaram à confiança do paciente, e 71% dos participantes disseram que confiariam mais no diagnóstico se o dentista usasse IA na avaliação radiográfica. As perguntas e populações são diferentes, então a comparação exige cautela — mas os dois estudos apontam na mesma direção: os pacientes recebem bem a IA como aliada do diagnóstico.
O caminho para uma odontologia mais transparente
Os números, colocados lado a lado, contam uma história consistente. Enquanto 74,4% dos pacientes confiam no dentista na maioria das vezes, apenas 38,9% afirmam compreender claramente suas radiografias com a mesma frequência. Ao mesmo tempo, 70,1% avaliam positivamente a utilização de Inteligência Artificial como apoio à análise dessas imagens.
A confiança no profissional é alta, mas a compreensão das imagens que sustentam o diagnóstico ainda é baixa. É nessa lacuna que a IA aparece como oportunidade: não para substituir o dentista, mas para ajudá-lo a demonstrar, com mais clareza, o que embasa o diagnóstico — mantendo o profissional responsável pela interpretação e pela decisão final.
Sobre a pesquisa: o levantamento reuniu 500 participantes via SurveyMonkey, avaliando escolaridade, experiência odontológica, confiança no diagnóstico, compreensão de radiografias e percepção sobre tecnologia e IA. O número de respostas válidas variou entre 472 e 478, conforme a pergunta. Os resultados são descritivos da amostra e não devem ser interpretados como representativos da população brasileira em geral; as análises de associação foram exploratórias, usando qui-quadrado e V de Cramér.