A saúde começa pela boca: associação entre presença dentária, mortalidade e diagnóstico precoce

25 February 2026

Autor: Renan Berbel
Publicado em: 25 de fevereiro de 2026

A literatura contemporânea tem reforçado, de forma consistente, que a condição oral — e em especial a presença de dentes funcionais — é um marcador relevante de saúde sistêmica e de prognóstico em idosos. Não se trata apenas de “ter dentes”, mas de manter dentes em condições clínicas que preservem função mastigatória, conforto e controle de inflamação crônica, fatores que impactam nutrição, fragilidade, risco de infecções e desfechos cardiovasculares e cognitivos.

Presença de dentes e mortalidade

Um dos achados mais robustos e atuais vem do OHSAKA study, que vinculou check-ups odontológicos públicos a bases administrativas de saúde no Japão, incluindo 190.282 indivíduos ≥75 anos. O estudo demonstrou uma associação dose–resposta entre o número de dentes e a mortalidade por todas as causas; por exemplo, para homens com 0 dentes, o risco ajustado de mortalidade foi 1,74× em comparação ao grupo com ≥21 dentes (referência), com resultados semelhantes em mulheres. Um ponto particularmente importante foi mostrar que a contagem de “dentes hígidos + restaurados” prediz mortalidade com maior acurácia do que modelos que incluem também dentes cariados, sugerindo que a qualidade funcional e o controle de doença importam tanto quanto o número total de dentes. 

A relação entre integridade dentária e desfechos de longo prazo também se conecta ao conceito de fragilidade oral (oral frailty), que engloba menor número de dentes e comprometimentos funcionais (mastigação/deglutição, por exemplo). Em uma coorte prospectiva japonesa, fragilidade oral foi associada a menor expectativa de vida saudável (anos vividos sem incapacidade); adicionalmente, visitas ao dentista se associaram a maior expectativa de vida saudável em ambos os sexos, independentemente do status de fragilidade oral, reforçando o papel de acompanhamento contínuo e prevenção. 

No campo cognitivo, um seguimento de 10 anos do Japan Gerontological Evaluation Study (JAGES) encontrou que maior número de dentes se associa a maior expectativa de vida livre de demência, reforçando que a saúde oral pode atuar como marcador (e potencial mediador) de trajetórias de envelhecimento mais saudáveis. 

Por fim, uma revisão sistemática com meta-análise publicada no Journal of Endodontics (12 estudos longitudinais) confirmou que edentulismo ou <10 dentes se associa a aumento do risco de mortalidade cardiovascular, com HR ~1,66 na análise principal. Isso é coerente com hipóteses biológicas que conectam doença periodontal/tooth loss a inflamação sistêmica, pior perfil metabólico e maior risco aterotrombótico. 

Diagnóstico, acompanhamento e condição oral

A prevenção e o diagnóstico precoce em odontologia dependem de dois pilares complementares:

Acompanhamento clínico periódico (consultas regulares, reavaliações e profilaxia quando indicado), que reduz o tempo de exposição a cárie ativa, doença periodontal e infecções; e

Exames de imagem e registros comparáveis ao longo do tempo, que ampliam a detecção de alterações discretas e permitem intervenção antes de grandes perdas estruturais.

Evidências epidemiológicas recentes mostram que pior autopercepção de saúde oral e padrões subótimos de visita ao dentista se associam a maior risco de mortalidade por todas as causas (mesmo após ajustes por fatores de risco e número de dentes remanescentes), reforçando que acesso e continuidade do cuidado são determinantes importantes. 

Do ponto de vista oncológico, dados multicêntricos sugerem que a frequência de visitas odontológicas se relaciona com desfechos em câncer de cabeça e pescoço, em linha com a lógica de que vigilância clínica e encaminhamento oportuno podem favorecer diagnóstico em estágios mais iniciais e melhor prognóstico. 

O papel dos exames de imagem

A radiologia odontológica também contribui para diagnóstico precoce em duas frentes:

Detecção de doenças orais (lesões periapicais, doença periodontal avançada, alterações ósseas, reabsorções, dentes inclusos e achados incidentais com implicações terapêuticas);

Achados incidentais com impacto sistêmico, como calcificações em região carotídea em radiografias panorâmicas, que podem funcionar como sinalizador para avaliação médica de risco cardiovascular.

Há estudos recentes discutindo a utilidade clínica de identificar calcificações carotídeas em panorâmicas e como isso pode apoiar rastreio oportunístico e encaminhamento médico quando apropriado. 
Além disso, trabalhos com deep learning vêm demonstrando desempenho promissor para detectar calcificações carotídeas em panorâmicas, o que abre caminho para triagens mais consistentes em larga escala. 

Como a DIO pode apoiar diagnóstico precoce e plano de tratamento

Nesse contexto, plataformas digitais como a DIO podem atuar como um “multiplicador” de boas práticas clínicas ao:

Padronizar a leitura de exames (reduzindo variabilidade e omissões de achados relevantes);

Acelerar a triagem de alterações em imagens (priorizando casos que exijam atenção);

Facilitar comparação longitudinal, aumentando sensibilidade clínica para mudanças discretas;

Estruturar a documentação e o plano de tratamento, conectando achados radiográficos e clínicos a condutas, monitoramento e comunicação com o paciente.

A literatura sobre IA em radiologia odontológica destaca exatamente esse potencial: suporte à decisão, triagem, consistência diagnóstica e integração ao fluxo clínico, com impacto direto na janela de diagnóstico precoce e na qualidade do planejamento terapêutico.


Referências 

Otsuki N, Yamamoto R, Mameno T, Takeuchi S, Shinzawa M, Kono A, et al. Assessing the effectivity of counting the number of teeth with their conditions to predict mortality: the OHSAKA study. BMC Oral Health. 2025;25(1):1982. doi:10.1186/s12903-025-07275-6. 

Khairinisa S, Kiuchi S, Matsuyama Y, Iwasaki M, Aida J. Oral Frailty, Dental Visits, and Healthy Life Expectancy: A 6-Year Prospective Cohort Among Japanese Older Adults. Geriatr Gerontol Int. 2025;25(12):1884-1893. doi:10.1111/ggi.70230. 

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